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ABPS - Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama
ARTIGOS

 

O começo do fim,

ou, o fim do começo....

ou ainda, o começo da transformação, da adequação....

O eterno recomeço....

 

                                                                                               Rosa Lidia Pacheco F. Pontes

 

...Temos, sem dúvida uma grande luta entre as antigas formas de pensamento, duras e resistentes à custa de ressecamentos, e esclerosadas, e as novas formas de pensamento que são ainda embrionárias (o que é embrionário é, portanto, frágil, e corre risco de morrer). Estamos neste ponto e creio que neste domínio entramos num novo começo. Não estamos no fim da história das realizações do pensamento; não alcançamos os limites do gênio humano; longe disso, estamos na pré-história do espírito humano. Não estamos na batalha final, mas na luta inicial: estamos num período inicial no qual devemos repensar as perspectivas de um conhecimento e de uma política dignos da humanidade na era planetária, para que a humanidade possa nascer como tal...” (MORIN in Schnitman, 1996, pág.285.)

 

Locus Nascendi do Psicodrama no Brasil
Século XX: Meados de 60 a meados de 70.  
Breve panorama I

Há 15 ou 20 anos termina a 2ª grande guerra e se inicia a guerra fria.
Estados Unidos e União Soviética disputam a hegemonia no mundo.
Capitalismo x Socialismo.
O Brasil pressionado pelos Estados Unidos passa a ser governado por uma ditadura de extrema direita em 1964.
Desde então, os partidos políticos são extintos, as eleições para governador passam a serem indiretas.
O congresso é fechado, a censura apreende livros e controla jornais, rádio e teatro e cinema.
As contestações de rua são proibidas e as manifestações estudantis duramente reprimidas.
É prevista por decreto a pena de morte e a prisão perpétua para os casos de Guerra revolucionária ou subversiva.
No Festival Internacional da Canção, Geraldo Vandré agita a platéia com uma musica que torna-se um símbolo: Caminhando e Cantando.
O governo reage a toda esta agitação baixando a AI 5.
Com o endurecimento do regime, políticos e artistas partem para o exílio.
A economia cresce e a classe média enriquece.
A entrada de capital estrangeiro bate recordes e a dívida externa chega a 13 bilhões de dólares.
O Brasil conquista o tri comemorando com um carnaval temporão: Noventa milhões em ação, pra frente Brasil....
Os órgãos de repressão podem prender e tornar os indivíduos incomunicáveis.
A repressão aumenta e aumentam as guerrilhas e atos subversivos.
No cinema surge a porno chanchada.
Na TV a supremacia é da Rede Globo.
O feminismo avança, mas o casamento ainda é para sempre, até que a morte separe.
O controle da natalidade aumenta coma a chegada das pílulas.
As ditas ciências humanas: Psicologia, Sociologia, são premidas a adotar o método científico das ciências naturais para adquirirem o status de Ciência.
Só é considerado conhecimento válido o que for passível de observação e mensuração.
A lei da causa e efeito.
O princípio do terceiro excluído.
O observador neutro.
Nas faculdades de Psicologia se ensina a Psicanálise e Comportamentalismo.              
O Psicodrama chega ao Brasil, primeiramente via Minas e posteriormente via São Paulo onde rapidamente se espalha seduzindo psicólogos e psiquiatras que promovem o Congresso Internacional no MASP.
Um grande happening.
São criadas as primeiras instituições de ensino de Psicodrama.
Os primeiros psicodramatistas chegam a manter 10 grupos terapêuticos por semana.
Alguns chegam a serem pressionados pela polícia política.
A prática integrando ação e emoção é o seu forte.
A teoria ainda carente.

 

Psicodrama no Brasil globalizado hic et nunc.
Século XXI – anos 2000
Breve panorama II

A Nova, já velha Republica.
Moeda estável, inflação baixa.
O partido dos trabalhadores elege e reelege Lula para a presidência do país.
Câmara e Senado em pleno funcionamento, mas mergulhado em um infindável mar de lama.
A imprensa é livre e denuncia, mas tudo acaba em pizza com políticos que estão pouco se lixando para a opinião publica.
A ministra do turismo aconselha aos viajantes que relaxem e gozem com o problema aeroviário.
As eleições dependem mais da performance dos candidatos na mídia do que de suas idéias, de seu plano de trabalho.
O mundo ocidental passa por grandes mudanças.
A tecnologia avança, aumenta a comunicação e alteram-se as condições de tempo e espaço para o homem.
A globalização está aí, com tudo, em todos os planos. 
O Brasil é uma das aldeias globais.
O papel feminino mudou: as mulheres estudam, trabalham, são independentes.
O casamento é mantido enquanto o amor durar....
A instituição família modifica-se.
O homem está perdido: qual é mesmo seu papel?
O consumo e atuação no cotidiano são os únicos horizontes.
O sujeito vive sem projetos, sem ideais, a não ser cultuar a auto imagem e buscar a satisfação aqui e agora. (SANTOS, 1986, pág. 30)
O individualismo, a deserção do social, o afrouxamento dos laços sociais.
Todos podem falar, mas poucos têm vontade.
Descrença...Adeus às ilusões.
Sentimento global, que desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades (SANTOS, 1986, pág. 18).
A Ciência e seus métodos são questionados: os princípios de causa e efeito, da ordem, da objetividade.
As ciências ditas humanas resistiram à separação sujeito/objeto e têm preferido a compreensão do mundo à manipulação do mesmo.
O movimento psicodramático se expandiu. A Federação Brasileira de Psicodrama, criada em 1976, conta com 37 federadas distribuídas pela maioria dos estados brasileiros.
O Psicodrama Sócio Educacional foi reconhecido não somente pela Federação quanto pela sociedade.
Inúmeras são as intervenções sócio educacionais realizadas pelos psicodramatistas pelo Brasil afora em todos os contextos quer em âmbitos macro ou micro.
A teoria foi estudada, aprofundada, ampliada, correlacionada por autores nacionais.
Os psicodramatistas brasileiros marcam suas presenças nos congressos internacionais tanto no que se refere à habilidade prática quanto ao conhecimento e profundidade teórica.
Dissertações de Mestrado e teses de Doutorado buscam a inserção do Psicodrama no mundo acadêmico.

 

O Psicodrama, sua matriz brasileira, e o hic et nunc:

Fazendo uma rápida análise do breve panorama I pode se perceber que a chegada do Psicodrama ao Brasil pode ser comparada ao nascimento de um filho ha muito desejado. Dava voz às pessoas que precisavam falar, se reunir, trocar, em um momento que toda e qualquer expressão era duramente reprimida. Em uma era de grandes mudanças, do início de grandes revoluções sociais como o movimento feminista. Cumpria seu papel de re – ligare através do trabalho inter-relacional e do desenvolvimento da espontaneidade. Sem duvida, havia muito de espontaneísmo, mas sua essência estava ali e conquistava psicoterapeutas e pacientes.
No âmbito da Psicologia surgia como alternativa às propostas behavioristas, que desconsideravam o mundo interno dos indivíduos, e psicanalíticas que priorizavam o mundo interno pouco considerando as inter - relações concretas do aqui e agora. Uma proposta inovadora de integração entre corpo – mente, razão – emoção.
No âmbito acadêmico, no entanto, dentro dos rigores da metodologia científica existente restava-lhe pouco lugar, bem como para Moreno, que ao chegar aos Estados Unidos lançou mão da Sociometria como instrumento de medição para ser aceito, embora frizasse que o socium era mais importante que o metrum.

Hoje, o momento é outro.
O ser humano está individualista. Suas inter-relações primam pelo superficialismo. A tecnologia da mesma forma que aproxima, afasta as pessoas. Um mundo virtual, de relacionamentos virtuais (“Denise está chamando?”). Um mundo consumista e descartável, até mesmo nos relacionamentos. O ter em contraposição ao ser. O culto à beleza e à juventude.   
Nenhuma época acumulou sobre o homem tão numerosos e diversos conhecimentos como a nossa (....) Nenhuma época conseguiu tornar esse saber tão pronta e facilmente acessível. Mas nenhuma época tampouco soube menos o que é o homem.”

Não existem grandes causas, apenas poucas e pequenas relacionadas a interesses próprios ou próximos. O exacerbar do capitalismo, a Lei de Gerson. No Brasil, a desesperança política e uma pseudo-segurança econômica. Insegurança e descrença.
Outro contexto, outro cenário, novos atores protagonizam.
Como o Psicodrama se insere? São necessárias novas respostas adequadas à nova situação.
O mundo psicodramático inserido neste contexto parece ter dado um grande passo espontâneo, de adequação à realidade quando a Febrap reconhece o Curso de Formação em Psicodrama Pedagógico, atualmente Psicodrama Sócio Educacional. Cumpre o ideal de Moreno de ir onde o ser humano está. Propõe trabalhos delimitados a papéis sociais bem estabelecidos através do Sociodrama e do Role Playing, que vem se expandindo com competentes propostas de atuação nas organizações empresariais, educacionais e com foco social.
Mas, a quantas anda o Psicodrama Clínico?
Não tenho dados oficiais e confiáveis para afirmar, mas o que tem chegado a meus ouvidos, é que para grande parte dos psicodramatistas, os grupos em consultório vêm minguando...Não somente os grupos, mas o número de pacientes como um todo. Até mesmo os alunos das instituições que mantém clinicas escola tem encontrado dificuldade em montar grupos psicoterápicos.
Seria uma realidade restrita aos psicodramatistas ou que se estende também às demais modalidades psicoterápicas? Me parece, também de ouvido, que se trata de um movimento mais generalizado.
Penso que estes dados deveriam ser pesquisados, tanto no universo psicodramático quanto de outras vertentes, bem como, caso confirmados, serem estudadas e analisadas as possíveis causas.
No entanto, em falta de dados mais precisos, confiarei em princípio nos ouvidos, e em uma perspectiva multicausal procurarei levantar algumas hipóteses e questionamentos:

  • Dentro do cenário pós-moderno, pessoas que vem buscando a felicidade em condições externas ligadas ao consumo e à aparência, o processo terapêutico que propõe uma melhor qualidade de vida através do autoconhecimento e da saúde relacional vem sendo valorizado? E, ainda, neste mesmo cenário em que o individualismo está exacerbado, seria a proposta terapêutica grupal a preferida pelos indivíduos?

 

  • Os livros de auto - ajuda florescem (e desaparecem) nas prateleiras das livrarias vendendo a idéia mágica da auto - suficiência que tão bem complementa o super homem / mulher da atualidade.

 

  • A industria farmacêutica vem investindo milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento de produtos cada vez mais eficientes no sentido de minimização dos sintomas: uma saída rápida e indolor que não exige participação ativa do indivíduo.
  • O mundo está acelerado e, as soluções precisam ser rápidas. Quantos indivíduos querem ou podem despender o pouco que lhes reta em tempo e energia para o autoconhecimento? Ajuda em que? Às vezes mais lhes parece que atrapalha.

 

  • E ainda há a crescente concorrência profissional.  Na década de 70, o CRPSP registrava 2000 psicólogos, atualmente, aproximadamente 90000. Poderia se argumentar que a população também cresceu, mas se estávamos com 90 milhões de brasileiros em 70, hoje estamos em 184 milhões. Enquanto a população dobrou, o numero de psicólogos somente no estado de São Paulo cresceu 45 vezes.

 

Todos as considerações e questionamentos anteriores, no entanto, dizem respeito a fatores externos ao universo psicodramático, que penso, estendem-se aos demais movimentos, o que não diminui suas relevâncias, mas seria imprudente e parcial não questionar a intimidade do primeiro.
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Da mesma forma, as próximas idéias levantadas não estão fundamentadas em dados de realidade, mas nos olhos e ouvidos, e por isto mesmo, devem ser vistas com cautela em compreendidas como hipóteses e questionamentos.

  • O movimento cresceu muito, mas um crescimento no mínimo estranho. Por exemplo, somente na cidade de São Paulo estão registradas pela Febrap 11 escolas e em Brasília 04. Primeiramente vem uma questão: porque tantas? É o mesmo Psicodrama que se ensina? Em caso afirmativo, porque tamanha concorrência? Em caso negativo, que Psicodrama serão estes tantos?

 

  • Com tal concorrência, como anda a qualidade do ensino? Na briga pela manutenção, quais têm sido os critérios de seleção dos alunos? E dos professores? Como vêm sendo elaborados e cumpridos os currículos e as cargas horárias? As normas básicas discutidas e referendadas por todas as instituições, em fórum próprio para tal, vêm sendo realmente cumpridas? Ou estão aí somente para constar, para mostrar uma pseudo-seriedade?
  • Com que acuidade as instituições estão encarando a formação dos novos psicodramatistas, através dos quais o movimento deverá prosseguir?

 

  • A produção dos TCCs parece ter aumentado, mas enquanto qualidade, segundo afirmação da atual Diretora de Ensino no último fórum gestor, parecem estar deixando muito a desejar tanto nos âmbitos teórico e prático, quanto teórico - práticos e até mesmo éticos.
  • A instituições também estão refletindo de alguma forma o mundo de aparências e simulacros da sociedade pós - moderna? Preocupando-se com a sobrevivência têm se esquecido de seus principais objetivos e da ética?

 

 

O Psicodrama brasileiro amanhã: Quem sobreviverá?

A perspectiva está nas mãos dos psicodramatistas que precisarão desenvolver ao máximo sua espontaneidade – criatividade para cuidar do movimento, ao mesmo tempo e da mesma forma e cuidado com que olham e cuidam das pessoas e das sociedades. O movimento psicodramático é um micro cosmo que parece estar refletindo o macro cosmo e que precisa da mesma reflexão, atenção e transformação. Talvez se tenha que pensar em novas formas de divulgar, ensinar e trabalhar com Psicodrama. O mundo mudou e o movimento psicodramático não pode continuar a agir encima de conservas de seus primeiros momentos, e principalmente procurando manter aparências.
Momento de reflexão sobre a prática.

Todos os homens nasceram para criar. (MORENO, 1992, pág.113).

Todos os criadores estão a sós até que seu amor pela criação forme um mundo ao seu redor.     (MORENO, 1992, pág. 114).

Mas ainda, deve se salientar, que apesar de todas as dificuldades, temos muitos profissionais já engajados nesta ponderação. Além de todos nós aqui reunidos em pleno sábado para discutir o tema em mesa redonda, temos que salientar o trabalho daqueles que estão cuidando com o devido carinho do Psicodrama em seus papéis de professores, supervisores, diretores, e alunos, buscando novos caminhos. Neste sentido, saliento o trabalho de conclusão de curso que a aluna Márcia Lima apresentará logo após o almoço. Eis aí um esforço em encarar o TCC, não como mero cumprimento de uma exigência, mas como mais um momento pedagógico que propicia uma revisão sobre a teoria, uma revisita sobre a prática, procurando, dentro de seus limites de aluna recém formada, processar sua prática, e pensar em novas propostas apesar da dor e do medo.

 ...Para que a lagarta se converta em borboleta, deve encerrar-se numa crisálida. O que ocorre no interior da lagarta é muito interessante; seu sistema imunológico começa a destruir tudo o que corresponde á lagarta. Incluindo o sistema digestivo, já que a borboleta não comerá os mesmos alimentos que a lagarta. A única coisa que se mantém é o sistema nervoso. Assim é que a lagarta se destrói como tal para poder construir-se como borboleta. E quando esta consegue romper a crisálida, a vemos aparecer, quase imóvel, com as asas grudadas, incapaz de desgrudá-las. E quando começamos a nos inquietar por ela, a perguntar-nos se poderá abrir as asas, de repente a borboleta alça vôo.  (MORIN, 1996, pág. 286)

 

O desafio psicodramático atual, no entanto, não para por aí. Ainda tem pela frente uma possibilidade quase inexplorada no que se refere ao âmbito científico.
As novas descobertas vêm implicando em um novo fazer científico que tem representado mais do que uma mera reformulação em seus respectivos campos.
Sem dúvida, vive-se uma grande crise paradigmática.
Definindo-se paradigma como um conjunto de crenças, valores e técnicas partilhadas por uma comunidade científica e que refletem o conhecimento adquirido por aquela sociedade, uma crise de paradigmas pode ser definida como uma mudança conceitual, ou uma mudança de visão de mundo advinda da insatisfação com os modelos de explicação até então predominantes.

Há uma nova concepção da matéria e de sua natureza:

...em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto – organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente. (SOUZA SANTOS, 2003, pág. 48)

No momento atual, não há como se delinear o novo paradigma, ele está em construção. A própria crise tem fornecido pistas de para onde se encaminha o conhecimento, mas, somente depois de percorrido o caminho, é que se poderá verdadeiramente descrevê-lo. Por hora, restam especulações.
Surgem aí, então, as novas possibilidades em pesquisa com trabalhos qualitativos, com o aceite de pequenas amostras, com recepção de programas fora do contexto dos laboratórios acéticos, com a consciência da interferência do sujeito no objeto de estudo.  
Neste contexto encontra – se o Moreno à frente de seu tempo.

Com freqüência, Moreno referiu-se ao ano 2000, proclamando que, embora suas idéias pudessem ser prematuras para o século XX, o século seguinte seria seu...(MARINEAU, 1992, pág. 162).

O posicionamento e atitude de Moreno em relação à pesquisa científica são coerentes com sua postura em relação à sua proposta metodológica de intervenção: valoriza o Psicodrama por ter encontrado um método de investigação que se aproxima muito do processo natural do conhecer-se a si próprio (MORENO,1993).

Ao pensar em pesquisa, estima, da mesma forma, a aproximação dos fatos em si, in situ, sublinha o constante pressuposto do contato imediato com a realidade. Rejeita o laboratório que trabalha com amostras escolhidas e programas pré – determinados, defende o aproveitamento da realidade sem violentá-la, respeitando-a no contexto em que se encontra.

Em relação ao método, argumenta que cada ciência deve possuir sua forma específica de abordagem, e que em relação ao homem, não se pode fazer uma ciência autentica que prescinda da subjetividade inerente ao ser humano.

...Cada ciência tem sua maneira própria de cumprir essa tarefa. As condições em que aparecem os fatos físicos e biológicos são relativamente bem conhecidos. Porém se torna um assunto bem mais complicado, avaliar as condições de emergência dos fatos relativos às relações humanas. Semelhante empreendimento só se pode conseguir de maneira adequada, adotando um método verdadeiramente revolucionário...Quando se trata de sociedades animais, se pode admitir que estas foram dadas e fixadas de uma vez para sempre, como o são os organismos animais individuais; porém a sociedade humana não tem nada de automatismo estabelecido ou fixo. Embora extremamente ligada a condições físicas e biológicas, possui uma estrutura cuja criação e desenvolvimento dependem de condições internas e que, em conseqüência, devem ser estudadas a partir de seu interior. (MORENO in Martin,1986, pág. 103)

Por não aceitar a importação de métodos de outras ciências para o estudo do ser humano, não concordar com a possibilidade de haver um observador neutro, e, compreender que inexiste uma apreensão pura da realidade, propõe um método que procura objetivar a subjetividade. Em grupos, sugere a participação de todos os envolvidos na experimentação, para evitar o distanciamento e a presença do observador que necessariamente altera as circunstâncias. Trabalha, assim, também com a intersubjetividade.

Nós, os sociômetras, temos insistido desde os primeiros momentos, em que o ser humano em toda sua subjetividade, deve ser parte e parcela da análise científica, com o objetivo de oferecer ao investigador uma completa relação fenomenológica de tudo o que ocorre na situação humana. Demonstramos que se o subjetivismo é levado a sério, assume um caráter “quase objetivo” que torna os respectivos fenômenos passíveis de “medição”. (MORENO in MARTIN,1986, pág. 103).

Coloca que além dos próprios participantes estarem envolvidos na experimentação, os investigadores, também, devem adotar uma nova postura, o de também participante do processo. Introduz o termo observador participante. Acredita que o pesquisador só pode penetrar na unidade profunda do grupo quando se torna um integrante comprometido no mesmo processo que deseja investigar e do qual não pode se excluir (Menegazzo, 1995).
Propõe que o sujeito do conhecimento, o observador participante, seja submetido a um processo terapêutico no sentido de desenvolver tanto a auto quanto a hétero percepção, reconhecendo as conservas culturais interiorizadas, minimizando desta forma o grau de sua interferência subjetiva:

Só com a experiência de uma longa série de inversões de papeis e de um processo de constantes subjetivações e objetivações pessoais, é possível chegar ao plano adequado à investigação neste papel de observado participante (MORENO in MENEGAZZO, 1995).

Tentando sintetizar a postura de Moreno frente ao sujeito, ao objeto e ao método de conhecimento, Eugenio Garrido Martín (1986) coloca que o Psicodrama pode ser compreendido como um método revolucionário por fundamentar-se na ação espontânea do sujeito e por colocar todos os participantes do experimento, simultaneamente, como sujeitos e pesquisadores.

...este método revolucionário se fundamenta em duas características essenciais e complementares: a primeira é que o sujeito, objeto da experimentação, atue de maneira espontânea. Assim poderemos ver o que se passa em sua subjetividade em status nascendi, pois uma das características da ação é que enquanto atua, o indivíduo perde todo o controle sobre si mesmo, e torna-se puro ato, permitindo ao diretor do experimento, chegar ao conhecimento direto do que está acontecendo em seu psiquismo. (MORENO in MARTIN, 1986, pág. 104).
 
Em termos de validação, Moreno reluta em aceitar a quantificação. Em seus estudos sociométricos, que por suas próprias características, exigem a mensuração, salienta que o socius é mais importante que o metrum. Acredita na convalidação existencial em que os números pouco ou nada expressam com relação à vivência, podendo, inclusive, até desvirtuá-la. Utiliza-se, no entanto, principalmente na fase em que pretendia consolidar o Psicodrama como ciência, de métodos de quantificação.
Finalmente, o criador do Psicodrama não faz uma separação rígida entre pesquisa e intervenção: suas descobertas e elaborações são resultantes de seu posicionamento como observador participante em suas ações. Ao referir-se ao sociodrama, coloca que se trata de ...uma ação profunda, um método, um instrumento da pesquisa – ação... (Moreno,1972)
Moreno pretende suplantar as escolas de pensamento racionalistas e empiristas com uma metodologia voltada menos para a explicação e mais para a transformação (Brito, 1990), e que não aceita a visão de mundo que justifica o raciocínio explicativo – causal, estando sua obra baseada em uma concepção de universo aberto, em uma concepção de tempo assentada na categoria do momento, ou seja, em uma perspectiva que privilegia o novo, o imprevisível (BRITO, 1990).
Desta forma, Moreno que nos anos 40 precisou utilizar-se do metrum com infindáveis estudos estatísticos para firmar seu conhecimento no mundo científico está mais atual que nunca fornecendo aos psicodramatistas a oportunidade de apresentar à comunidade científica um método em conformidade com o pensamento atual.
Em síntese, está aberta uma nova perspectiva ao movimento psicodramático, uma nova possibilidade de comunhão entre o Psicodrama e a Ciência, um encontro, em que ambos podem fortalecer-se, parafraseando Fonseca, revitalizados em suas próprias identidades, o Eu será mais Eu e o Tu mais Tu. (FONSECA, 1980, pág. 98).
 

Uma verdadeira viagem de descobrimento não é encontrar novas terras, mas ter um olhar novo.                                                                                                                    Marcel Proust

 

Cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
                                                                                                     Carlos Drumond de Andrade

 

 

Referências Bibliográficas:

BRITO, Valéria C. de A. Novos caminhos para a Socionomia. Revista Brasileira de Psicodrama. Vol. 10. Número 2. 2º semestre de 2002. Págs. 87 a 92. São Paulo: Diretoria de Divulgação e Comunicação da Federação Brasileira de Psicodrama - FEBRAP.

FONSECA FILHO, José S. Psicodrama da Loucura – correlações entre Buber e Moreno. São Paulo: Agora, 1980. 

MARINEAU, René F. Jacob levy Moreno, 1889 – 1974: Pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo”.São Paulo: Ágora, 1992.  

MARTÍN, Eugenio Garrido. Psicologia do Encontro: J. L. Moreno.São Paulo: Ágora, 1986.

MENEGAZZO, Carlos Maria, et alli. Dicionário de Psicodrama. São Paulo: Ágora, 1995.

MORENO, Jacob Levy,  As Palavras do Pai. Campinas: Editorial Psy, 1992.

____________________ Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Campinas / SP: Editorial Psy, 1993.

MORENO, Jacob Levy. Fundamentos de la Sociometria. 2ª Edição. Buenos Aires: Editorial Paidós. 1972.

MORIN, Edgar, O método 5: a humanidade da humanidade. 2a Edição.Porto Alegre: Sulina, 2003.

PONTES, Rosa Lídia P., Recortes do Psicodrama e do Pensamento Complexo contribuindo para o Desenvolvimento da Relação Professor – Aluno. Dissertação de Mestrado, São Paulo – 2006.

SANTOS, Jair Ferreira, O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2004.

SANTOS, Boaventura de S. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2003.

SCHNITMAN, Dora Fried. Org. Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.


Psicóloga, Psicodramatista, Professora, Didata e Professora Supervisora de Psicodrama nos focos psicoterápico e sócio educacional, Mestre em Educação.
Rua General Vitorino Monteiro, 158. Vila Romana. São Paulo.
rlpp@uol.com.br. Fones: (11) 3872 9878 – 3865 0186.

Fime de Hal Salwen.EUA, 1995, 80 minutos.

HEIDEGGER, apud Edgar MORIN, Método 5. 2ª edição. Porto Alegre: Sulina, 2003, Pág.16.

 

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